12 de outubro de 2026 ~10 min de leitura
Ryan Barbosa
I. O Silêncio que Berra
O poema abre com uma subtração: "Todo barulho que lá fora surgia, / Já não surge." O mundo exterior cala-se, e é nesse vazio que nasce o primeiro paradoxo. O silêncio "assopra, / Assobia, / Não grita, / Berra." A gradação sobe como um motor em rotação, do sopro ao berro, e instala desde o início a tese de todo o poema: há estados em que a ausência de ruído é o ruído mais alto. Quem está em turbulência conhece isto. Não é o mundo que faz barulho. É o que fica quando o mundo se cala.
II. A Acelerada
"Raramente, / Uma ou outra vez, / Uma acelerada espontânea". É a primeira vez que o motor aparece, e aparece como alívio. Por um instante, "o peso da máquina desaparece. / E tudo que resta / Apenas resta." É a promessa da fuga: um ponto onde nada pesa, nem a terra, nem o passado.
Mas o alívio traz logo a pergunta: "Então o que é que me resta? / Um corpo se movendo pelo espaço?" Sem peso e sem memória, o sujeito poético descobre que também ficou sem si. E a resposta é das linhas mais duras do texto: "Aqui ficou o meu ser que houve / Não o que há". O eu divide-se no tempo: o que foi ficou para trás, o que é segue no carro. O poema não diz qual dos dois é o verdadeiro. E logo a seguir tira até essa âncora: "Mas ele vai, / Some rápido." Nem o ser que ficou fica. O passado também se apaga, e o sujeito acelera sem nada que o espere atrás.
III. A Janela
"Talvez seja mais fácil acelerar / Enquanto o barulho fica. / Não lá fora. / Ele adentra." É a viragem do poema. O ruído que o sujeito tentava deixar para trás muda de lugar: sai da rua e entra na cabeça. Já não é som, é pensamento que não se desliga. Por isso "já não é possível fechar a janela." Podes subir paredes, procurar o silêncio, mas "quem te persegue já está aí dentro."
Repare-se que é aqui que o "eu" passa a "tu". O sujeito começa a falar consigo como se falasse com outro. Não é descuido: é o primeiro sinal da cisão que o final vai tornar explícita.
IV. O Que Bebe
"E o V8 que te libertava / Bebe." O verbo isolado no verso é o eixo do poema. Em português, beber serve ao carro e à pessoa, e o texto nunca escolhe. O motor que era liberdade passa a ser consumo, e consome mais precisamente quando mais se foge: "Bebe mais quanto mais foges".
O verso seguinte desmonta a fuga sem a nomear: "E pisas fundo / Porque pisar fundo / Ainda parece ir embora." Parece. A velocidade dá a sensação de partida, não a partida. E logo a palavra "fundo" regressa com outro peso: "Bebe até ao fundo, / Como se algum tanque / Chegasse até lá." O fundo do acelerador, o fundo do copo, o fundo da pessoa. Nenhum tanque chega lá.
A sequência que se segue tem uma lógica implacável. Primeiro o excesso, "gasolina demais, / faísca nenhuma": o motor afoga-se no que devia movê-lo. Depois a falta: o ponteiro desce. Primeiro afoga, depois seca. É a ordem exata de quem tenta encher-se com o que o esvazia.
V. O Ponteiro
Num poema em que tudo berra, o ponteiro é "a única coisa aqui / que não faz barulho." É a imagem mais perigosa do texto precisamente por ser silenciosa. O esgotamento não avisa. Não ruge como o motor nem grita como a curva. Desce.
E a conclusão chega sem moral: "A fuga termina / Quando termina o que arde. / E o que te fazia fugir / Já não te pode levantar." "O que te fazia fugir" lê-se de duas maneiras: o meio da fuga (o combustível) ou a causa dela (a dor). O poema deixa que sejam a mesma coisa. E "levantar" fecha o círculo: aquilo que dava subida, que te tirava do chão, já não faz efeito. Arde até ao fim e não ergue nada. No mesmo verso estão o esgotamento e a tolerância.
VI. A Curva
"Se frear primeiro perde." É a regra do jogo do medroso: dois carros em rota de colisão, e perde quem trava primeiro. Só que aqui não há outro carro. O adversário é o próprio condutor, e o jogo não tem vencedor possível: travar é perder, e não travar é arriscar que "já não haja / Outra curva fechada / Nem mesmo uma longa estrada." A curva é o perigo e também a única coisa que ainda dá forma ao caminho.
Logo a seguir: "O espelho não me mostra nada." O espelho de um carro é o retrovisor, e o retrovisor está vazio. Não há nada atrás. É o eco de "Tampouco o passado me lembra..." e de "Some rápido": o caminho de onde se veio já não aparece. E "debaixo do capô, / A minha voz." O sujeito já não se vê, e a sua voz foi parar ao motor. Já não se distingue quem fala de quem ruge.
VII. Ninguém Conduz
"Talvez eu nunca tenha sido / O que segurava o volante." O eu desfaz-se em vários: o que olhava a estrada, o que temia a curva, o que a desejava, e o que, "depois de tudo, / Ainda procurava uma longa caminhada de volta pra casa." Quem observa, quem teme, quem deseja o perigo e quem tem saudade, todos no mesmo carro, cada um a puxar para o seu lado.
O último é o único com esperança, e repare-se no que procura: uma caminhada. Não uma estrada para fazer a fundo, mas um regresso a pé, fora do carro. Voltar a casa, para ele, é largar o motor: sem velocidade, sem o barulho que adentra, sem o silêncio que berra. Alguém a andar em paz. Num poema todo feito de aceleração, o desejo mais fundo é o de ir devagar.
"Talvez cada um tenha seguido / O seu lado da estrada." E o verso isolado que se segue é o diagnóstico: "Nenhum deles conduz". O fecho recusa qualquer consolo: "E mesmo assim, / O motor não se cala." O sujeito fragmentou-se, ninguém está ao volante, e nem o que queria ir a pé saiu do carro. O poema termina como começou: com um barulho que já não depende de ninguém.
VIII. Nota Técnica: A Palavra que Não Escolhe
O poema sustenta-se num punhado de palavras com dupla leitura: "beber", "fundo", "arde", "levantar". Nenhuma é explicada. Se o texto dissesse "álcool" ou "droga", a metáfora fechava-se e o leitor ficava a olhar para um tema. Ao manter-se no vocabulário do motor, o poema obriga quem lê a fazer a ponte sozinho, e é nesse instante, quando o leitor percebe que o V8 bebe como uma pessoa bebe, que o poema acontece. A imagem não ilustra a ideia. Esconde-a, para que seja descoberta.
A carregar...