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14 de março de 2026 · ~6 min de leitura

Não é fácil eu seiAlgumas vezes estouOutras nem tantoQuando regressoPara alguns sou como um ventoPasso tão despercebido que nem notam a presença
É sempre mais fácil diminuirDifícil mesmo é instruir,Seguir,Acompanhar,Dar a mão quando o mundo te rejeitou.Não é pedir muitoBasta procurar,Ligar,Questionar...Mas para alguns isso é demais.
Chega a ser medonhoEntro ruimSaio pior
Entro sem futuroSaio sem destino.Sem saber o que fazer,Pra onde ir,Sem saber o que vai ser do amanhã....
A gente acaba aceitando,Não procurando,Não solicitando...Porque ser menosprezadoRebaixado,Jogado mais fundo do que já está,
É sempre mais fácil...
Fujo dos problemas,Tento seguir minha vida.Fazer por mim o que sei que não vão fazer.Aliás,A minha companhia devia ser suficiente.
Mas não dá,Não consigo,Ele sempre me procura.Sempre nas coisas mínimas é que ele aparece.Às vezes nem sequer tem motivos.Mas conseguem arrumar....Arrumam sempre alguma forma dele voltarMas nunca uma forma de ajudar,De perguntar,De mudar,Ou até mesmoDe apoiar
Não é fácilE nunca será....

Ryan Barbosa

I. Três Movimentos

O poema move-se em três camadas emocionais que se revezam: a angústia abre, a aceitação forçada ocupa o centro, e a fuga impossível fecha. É a forma natural como a mente processa o abandono — primeiro sentes, depois resignas-te, depois tentas fugir. E descobres que não consegues.

II. O Invisível

"Para alguns sou como um vento / Passo tão despercebido que nem notam a presença" — o sujeito define-se pela ausência de reconhecimento. Não é que não exista — é que quem devia olhar, não olha. E os dois versos que se seguem funcionam como tese de todo o poema: "É sempre mais fácil diminuir / Difícil mesmo é instruir." Duas linhas que condensam toda a crítica. Quem devia cuidar escolhe o caminho fácil — rebaixar — porque o difícil — acompanhar, orientar, dar a mão — exige presença real.

III. A Degradação

"Entro ruim / Saio pior" — esta é a acusação mais devastadora. Não diz que não fazem nada. Diz que fazem pior. O lugar que devia curar, adoece. O lugar que devia preparar, entrega pessoas ao mundo sem saber "o que fazer, / Pra onde ir, / Sem saber o que vai ser do amanhã."

A cascata descendente — "aceitando, / Não procurando, / Não solicitando..." — imita a própria desistência que critica. O uso do gerúndio é significativo: nunca chega ao particípio passado, nunca há resolução. Não é "aceitei" (concluído). É "aceitando" — permanente, em curso, sem fim. A dor não terminou. O processo está a acontecer enquanto se lê.

IV. A Aceitação Imposta

"A gente acaba aceitando" é talvez o verso mais doloroso do poema. Superficialmente parece sabedoria — a serenidade de quem compreende o inevitável. Mas não é. É esgotamento. A pessoa aceita não porque compreendeu a natureza da vida, mas porque foi tão diminuída que deixou de acreditar que merece pedir. Quando te tiram a opção de lutar e depois dizem que "aceitaste", isso não é serenidade — é derrota imposta.

V. A Fuga Impossível

"Fujo dos problemas / Tento seguir minha vida / Fazer por mim o que sei que não vão fazer" — a tentativa de separação, de construir uma vida apesar de tudo. E logo vem o colapso: "Mas não dá / Não consigo / Ele sempre me procura."

O problema é personificado — "ele" — como uma entidade que persegue. E o fecho é cirúrgico: "Arrumam sempre alguma forma dele voltar / Mas nunca uma forma de ajudar, / De perguntar, / De mudar, / Ou até mesmo / De apoiar." Quatro verbos empilhados como uma lista de tudo que falta. E o último — "De apoiar" — é o mais simples e o mais pesado. É o mínimo. E nem isso.

VI. As Reticências

"Não é fácil / E nunca será...." — o poema não fecha com ponto final. Fecha com reticências. Não há conclusão porque não há resolução. A frase dissolve-se no silêncio, e o que resta depois fica com quem lê.

VII. Nota Técnica — O Gerúndio

O poema usa o aspecto verbal durativo de forma consistente: "aceitando, procurando, solicitando, rebaixado, jogado." Gerúndios que mantêm a acção em suspensão permanente. Se tivesse usado infinitivos — "aceitar, não procurar" — o efeito seria abstracto. Se tivesse usado o pretérito — "aceitei, não procurei" — seria passado, fechado. O gerúndio é o único que coloca o leitor dentro do momento. Quando alguém está a sofrer, não pensa em passado — pensa em gerúndio. A dor não "aconteceu"; está "acontecendo."

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