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31 de maio de 2026 · ~9 min de leitura

A urgência é uma realidade.Tão real quanto o sentimento do poeta.Queremos p'ra ontem o que leva tempo.
Pois,
O mundo não permite a demora.A cultura de urgência, trata todo processo lento como incompetência.
Até faz-se funcionarMas,E dominar?
-Dominar? Hmmm...Não há tempo para dominar.O tempo é para entregar,O tempo é para performar,
O tempo....Já passou o tempo.
É tempo para não contemplar.É tempo de não questionar.É tudo muito rápido,Muito superficial,É muito atalho que já não sustenta Dostoiévski.
Bom,
Se a máquina não pensava no lugar de Clarice.Talvez só devemos aceitar o nosso tempo;Desejar que as coisas aconteçam como acontecem.Talvez só devas ser tuNo teu tempo e não no meu.
Pois a ponte o outro atravessa.Mas a raiz ninguém vê.E é ela quem sustenta longos anos da árvore viva.
Talvez devas apenas pensarQue a urgência é tão realQuanto o fingimento do poeta
Apenas dar tempo ao tempoSem perde-loSem desperdiça-lo
Porque a vida só é longaSe soubermos usá-la.
Por isso,Não deixe a vidaTomar o seu tempo.

Ryan Barbosa

I. A Tese e a sua Armadilha

"A urgência é uma realidade. / Tão real quanto o sentimento do poeta." O poema abre concedendo tudo ao adversário: sim, a urgência é real. Mas a comparação escolhida é uma armadilha que só se fecha no final. Por agora, "tão real quanto o sentimento do poeta" parece reforço — a urgência é real como é real o que o poeta sente. Guarde esta linha: ela vai voltar transformada, e a transformação é o argumento inteiro do poema.

II. O Diagnóstico

"Queremos p'ra ontem o que leva tempo." Aqui está a doença em sete palavras. "A cultura de urgência trata todo processo lento como incompetência." O poema nomeia o seu inimigo sem rodeios: não é a pressa pontual, é uma cultura — um sistema de valores que confunde velocidade com competência e demora com falha.

III. Fazer Funcionar Não É Dominar

"Até faz-se funcionar / Mas, / E dominar?" A distinção é cirúrgica. A urgência produz coisas que funcionam — entregas, resultados, performance — mas não produz domínio. E o poema responde à própria pergunta com um diálogo amargo: "-Dominar? Hmmm... / Não há tempo para dominar." O domínio exige uma lentidão que o sistema já não concede.

IV. O Tempo Sequestrado

"O tempo é para entregar, / O tempo é para performar." Os verbos denunciam: entregar, performar — vocabulário de produção, não de vida. E então o golpe: "Já passou o tempo." O tempo deixou de ser duração habitável para se tornar prazo. Não se vive no tempo; corre-se atrás dele, sempre tarde.

V. O Atalho que Não Sustenta

"É muito atalho que já não sustenta Dostoiévski." Verso decisivo. Dostoiévski não se lê em atalho, não se escreve em atalho, não se pensa em atalho. O nome funciona como medida: há profundidades — humanas, morais, espirituais — que a superficialidade veloz simplesmente não aguenta carregar. O atalho chega depressa a lugar nenhum.

VI. A Máquina e Clarice

"Se a máquina não pensava no lugar de Clarice." A linha mais contemporânea do poema, e a mais quieta. Contra a fantasia de que o pensamento se pode automatizar, o poema opõe Clarice Lispector — a consciência que se demora, que hesita, que escava a palavra. A máquina entrega; não contempla. E o que faz uma Clarice ser Clarice é exatamente o tempo que a máquina suprime.

VII. O Teu Tempo Não É o Meu

"Talvez só devas ser tu / No teu tempo e não no meu." Depois do diagnóstico, a viragem — e o seu verdadeiro alvo não é o mundo lá fora, mas a tentação interior de se medir pelo relógio alheio. O verso recusa a comparação como princípio de vida: há quem chegue cedo e quem chegue tarde, há quem floresça num calendário que não é o nosso. O perigo que o poema nomeia é o da mente que persegue uma realização — uma riqueza, um êxito — que pertence ao tempo de outro e não ao seu. Aceitar o próprio ritmo não é resignação: é deixar de correr atrás de uma vida que nunca foi a nossa.

VIII. A Ponte e a Raiz

"Pois a ponte o outro atravessa. / Mas a raiz ninguém vê. / E é ela quem sustenta longos anos da árvore viva." O centro imagético do poema. A ponte é o resultado visível, atravessável, exibível — aquilo que a cultura da urgência premeia. A raiz é o trabalho lento, oculto, sem aplauso, que sustenta a vida durante anos. O poema escolhe a raiz. E note-se: a raiz não compete com a ponte — sustenta a árvore, que é coisa viva, não construída.

IX. O Regresso da Armadilha

"Que a urgência é tão real / Quanto o fingimento do poeta." Agora a linha I fecha-se. Aberto com "tão real quanto o sentimento do poeta", o poema reescreve sentimento como fingimento — e o eco de Pessoa ("o poeta é um fingidor") detona a tese inicial. Se a urgência é real como o fingimento do poeta, então a sua realidade é a de uma ficção convincente: sentimo-la como verdadeira, mas é encenação. A urgência não foi negada; foi desmascarada.

X. Os Dois Inimigos do Tempo

"Apenas dar tempo ao tempo / Sem perdê-lo / Sem desperdiçá-lo." É aqui que o poema revela ter dois adversários, não um. Os dois versos finais — "sem perdê-lo", "sem desperdiçá-lo" — não são repetição: são duas ameaças distintas. A urgência rouba o tempo por fora, acelerando-o; o desperdício dilapida-o por dentro, esvaziando-o. Aceitar o próprio ritmo, depois da secção anterior, corria o risco de soar a licença para a preguiça — e o poema corta esse risco a tempo. Dar tempo ao tempo não autoriza dissipá-lo. A lentidão da raiz não é ociosidade: é trabalho, é uso. O fio do poema passa exatamente entre os dois precipícios — a pressa que sequestra e o ócio que desbarata.

XI. O Eco de Séneca

"Porque a vida só é longa / Se soubermos usá-la." Ressoa aqui o De Brevitate Vitae: a vida não é curta, nós é que a desperdiçamos. A duração não se mede em quantidade de tempo, mas em qualidade de uso — e usar a vida tem, neste poema, um peso moral. Contra o lema do carpe diem mal entendido, o "só se vive uma vez" que justifica a dissipação, o verso afirma o contrário: precisamente porque a vida é dádiva sem preço, não se a entrega à futilidade. A urgência encurta a vida enchendo-a de pressa vazia; o desperdício encurta-a enchendo-a de prazer oco. A sabedoria do tempo está em recusar ambos.

XII. A Inversão Final

"Não deixe a vida / Tomar o seu tempo." O fecho joga com a expressão feita. "Tomar o seu tempo" significa habitualmente demorar à vontade — exatamente o que o poema defendeu durante onze secções. Mas "não deixe a vida tomar o seu tempo" lê-se também como advertência inversa: não deixes que a vida — corrida, urgente — te roube o teu tempo. A ambiguidade é o último gesto: o mesmo verso pede lentidão e alerta contra o roubo do tempo. Dar tempo ao tempo, sim; entregá-lo à urgência ou à futilidade, nunca.

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