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15 de março de 2025 · ~3 min de leitura

Doce Voz.
Sou como o vento:Outrora estrondoso, autoritárioOutrora Doce e serena.Sempre que passo sou percebida,Mas nem sempre sou bem interpretada.
Há dias que sou tempestade,O calor do oceano e da água que evaporaFaz com que eu acelere cada vez mais.Arrasto carros, destruo prédios, até árvores arranco,Dependendo da minha velocidade,Também devasto cidadesDeixando um rastro de destruição e desespero por onde passo.
É melhor não brincar comigo!
Mas, nem sempre sou vento forte.Também sou calmaria.Brisa fria,Agradável e constante.
Assobio em seu ouvidoDe tão leve que passo.
1 nó de velocidadeAté as máquinas eu agrado e não causo turbulência.
Sou como a Lua.Feita de momentos.
Dos momentos que eu mais gosto,É quando sou tudo isso em uma só
Aí sim sou perfeita!
Uma Doce Voz,Viva,Que te traz alegria.

Ryan Barbosa

I. A Metáfora Central

O poema inteiro é construído sobre uma personificação dupla: a voz que fala é simultaneamente vento e mulher. Nunca se diz explicitamente que é uma pessoa — o leitor infere pela acumulação de pistas. "Outrora Doce e serena", "sou percebida", "bem interpretada" — são palavras que pertencem ao campo humano, mas estão coladas a fenómenos naturais. Essa ambiguidade é o motor do poema.

II. A Estrutura em Arco

O poema abre com força — "estrondoso, autoritário" — escala até à destruição máxima ("devasto cidades"), faz um corte seco ("É melhor não brincar comigo!"), e depois inverte completamente o tom para a calmaria, a brisa, o assobio. É um arco emocional clássico: tensão → clímax → resolução. Mas a resolução não é um dos extremos — é a fusão de ambos.

III. O Centro Silencioso

"Assobio em seu ouvido / De tão leve que passo." — este é o momento mais íntimo do poema. Depois de toda a violência e destruição, dois versos curtos e suaves. O contraste amplifica o efeito: a leveza só se sente porque a tempestade veio antes.

IV. A Virada — "Sou como a Lua"

A mudança de metáfora é significativa. O vento é movimento, força, impacto. A Lua é ciclo, fases, luz que muda. "Feita de momentos" condensa a tese do poema: a identidade não é fixa, é uma sequência de estados. E a perfeição não está em ser só calmaria ou só tempestade — está em ser tudo ao mesmo tempo.

V. O Fecho

"Uma Doce Voz, / Viva, / Que te traz alegria." — três versos curtos que funcionam como assinatura emocional. Depois de toda a dualidade, o poema escolhe terminar no lado luminoso. Não nega a tempestade — mas é a doçura que fica.

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