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4 de fevereiro de 2024 · ~5 min de leitura

Deambulo pela favela num dia lindoLindo esse ofuscado pelas vistas.Vista essa medonha e aterrorizanteCada boca um bicoCada esquina uma barricadaE no pé do morro, a polícia disfarçada de herói.
Cercado de bicos e armas de fogoEscondido na incerteza e na falta de oportunidade.Nem escolas, nem emprego,Operação ou invasão?
Única coisa que preciso saber:Quando e onde precisarei me esconder!Debaixo da mesa de uma sala de aula,Ou deitado debaixo da cama para não tomar uma bala achada?!
Pela estrada mais sombriaO pobre vai caminhando pro nada.
Fui parado!!Confundiram tudo e mais um poucoCivil, bandido ou trabalhador?As vezes nem eu consigo saber o que souÚnica coisa que eu seiÉ que se eu fosse rico e bacana,Não seria parado outra vez!
Muito racismo!Não foi a primeiraNão foi a segundaE não será a última vez
Parafal, ak47, guarda-chuva, chuteira ou G3Não importa a arma utilizada…Como podem achar normal 80 tiros de uma vez?
Ou até melhor,Quando o preto e o pobre terá sua vez?
Menos um faveladoMais uma mãe que choraMais um pobre morre trabalhandoMais um preto morto ao ir pra escola
Podes dizer-me então quanto vale um preto morto?COM TODA CERTEZA,Muito menos que um golo na Copa.
Nenhum dinheiro compra felicidadeMenos vaidade e mais verdadesA vida vai muito além das ilusões de uma celebridade
Diga-me então,O que você vê depois que fecha os olhos?
No final só restam cinzas.

Ryan Barbosa

I. A Abertura em Paradoxo

"Deambulo pela favela num dia lindo / Lindo esse ofuscado pelas vistas." — o poema abre com uma contradição deliberada. O dia é lindo, mas o que se vê é medonho. A beleza e o horror coexistem no mesmo instante, no mesmo lugar. Este paradoxo é o tom de todo o poema: a normalidade absurda de viver em guerra sem que ninguém a declare.

II. A Cartografia da Violência

Os versos mapeiam o território como uma operação militar: "Cada boca um bico / Cada esquina uma barricada / E no pé do morro, a polícia disfarçada de herói." A estrutura anafórica — "cada... cada..." — cria um efeito de cerco. O leitor sente-se encurralado tal como o sujeito.

III. A Pergunta que Ninguém Faz

"Operação ou invasão?" — em três palavras, o poema desmonta a linguagem institucional. O que o Estado chama de operação, quem vive lá chama de invasão. E a pergunta seguinte — "Quando e onde precisarei me esconder!" — não é retórica. É literal. É logística de sobrevivência.

IV. A Confusão de Identidades

"Civil, bandido ou trabalhador? / As vezes nem eu consigo saber o que sou" — este é o centro emocional do poema. O sistema de classificação é tão arbitrário que o próprio sujeito internaliza a dúvida. E a certeza que se segue é devastadora: "se eu fosse rico e bacana, / Não seria parado outra vez!"

V. A Escalada

O poema acumula armas — "Parafal, ak47, guarda-chuva, chuteira ou G3" — misturando arsenal militar com objectos do quotidiano. O guarda-chuva e a chuteira na mesma lista que a AK-47: tudo pode ser confundido com uma arma quando a pele é preta. "80 tiros de uma vez" não é metáfora — é referência directa a um caso real.

VI. O Punch Final

"Podes dizer-me então quanto vale um preto morto? / COM TODA CERTEZA, / Muito menos que um golo na Copa." — o poema constrói toda a sua argumentação para chegar a esta comparação. O valor de uma vida medido contra o valor de um golo. A caixa alta em "COM TODA CERTEZA" é o grito que o poema conteve até aqui.

VII. O Epílogo

Os versos finais mudam de registo — "Nenhum dinheiro compra felicidade" — como se o sujeito recuasse do grito para a reflexão. E a pergunta final, "O que você vê depois que fecha os olhos?", vira o poema para o leitor. Já não é sobre a favela. É sobre ti. "No final só restam cinzas" — para todos.

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